Foto: Mariana Bernardino
Iniciativas gratuitas de exercício físico têm melhorado a saúde e a rotina de moradores do Território do Bem, mas ainda não alcançam a todos
Reportagem: Gabriella Guerra, Lara Trindade e Mariana Bernardino
No Território do Bem, em Vitória, o acesso à saúde ainda é uma preocupação constante para muitas famílias. Entre longas esperas por atendimento, dificuldade de conseguir consultas e a rotina marcada pela falta de serviços próximos, os moradores enfrentam obstáculos que influenciam diretamente sua qualidade de vida. Entre eles, estão problemas de saúde como hipertensão, diabetes e obesidade.
A pesquisa “Saberes, Fazeres e Perfil dos Moradores do Território do Bem” (2019), realizada pelo Ateliê de Ideias, mostra que a hipertensão é o problema de saúde mais presente na região, atingindo 19,64% da população e aparecendo em 41% das famílias. A diabetes ocupa o quinto lugar entre as doenças mais citadas, 9,22% dos moradores relataram ter a condição, e 19,25% afirmaram ter casos na família. Já a obesidade aparece em sexto lugar no ranking, afetando 5,27% dos entrevistados e presente em 11% das famílias.
Esses números reforçam como as doenças crônicas fazem parte da rotina de grande parte dos moradores do Território do Bem. Com isso, a Prefeitura de Vitória, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), criou o Projeto de Serviço de Orientação ao Exercício (SOE), que é um programa de promoção da saúde, com ênfase nas práticas corporais e atividades físicas. Atualmente, Vitória conta com 29 Unidades de Saúde (US), sendo que 28 delas possuem profissional do SOE em atuação, e 15 Módulos do SOE, distribuídos pelas diferentes regiões de saúde do município.
As aulas são gratuitas e para participar não precisa, necessariamente, de encaminhamento médico. As aulas acontecem de segunda a sexta-feira, pela manhã de 06h às 10h e a noite de 16h às 20h. Dentro do Território do Bem, o bairro Consolação conta com uma unidade do SOE, que tem como preparador físico o professor Bernardo Maia. Ele relata a importância do esporte para a saúde.
Saúde física e mental
Segundo a Clínica Geral, Dafne Kalmus, o esporte gera gasto calórico que auxilia na manutenção do peso como tratamento para doenças como hipertensão e diabetes. A médica ainda afirma que a prática fortalece a musculatura, gera impactos na saúde e reduz o risco de comorbidades como artrose, osteoporose, entre outras.
Além do benefício físico, a médica diz que a atividade também pode promover a saúde mental. “O esporte promove a liberação de hormônios, como dopamina, que auxilia na saúde mental promovendo sensação de bem estar e disposição”, conclui.
Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que a faixa etária de 60 a 64 anos tem a maior prevalência de depressão no Brasil, atingindo cerca de 13% do grupo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 15% de pessoas com mais de 60 anos sofrem de depressão e ansiedade, e no Brasil, o problema afeta 14% dessa população.
O projeto em Consolação é um excelente exemplo de intervenção promotora de saúde. Interações como essa, que combinam atividade física e socialização, trazem múltiplos benefícios para a saúde mental da população. Segundo a Psicóloga Crislaine Oliveira, o grupo oferece um espaço seguro e estruturado para a conexão social, o que é crucial, principalmente para os idosos. Para ela, a interação pode trazer benefícios para a saúde mental.
“Isso eleva a autoestima e a confiança para enfrentar outros desafios da vida. Previne a solidão e diminui os riscos de depressão na terceira idade” Crislaine Oliveira, Psicóloga.
Histórias Reais
A transformação promovida pelo projeto aparece de forma clara na rotina de quem participa das atividades. São moradores de diferentes idades e condições de saúde que encontram no SOE, não apenas um espaço de exercício físico, mas também um ponto de apoio, convivência e cuidado contínuo. Além das atividades físicas, os alunos passam por um acompanhamento personalizado, realizado pelo próprio Bernardo em conjunto com os médicos especialistas da UBS.

A aluna Terezinha das Graças é moradora de Consolação e possui o perfil condizente com o da pesquisa apresentada pelo Ateliê de Ideias. Participante há 3 anos, Terezinha tem diabetes, hipertensão e luta contra a obesidade. E ela já soma quase 10 kg eliminados, além das quedas nas taxas de glicose e melhora na pressão.
Para Terezinha das Graças, as aulas já fazem parte da sua rotina. Ela participa todos os dias e, além de se exercitar, aproveita para fortalecer laços de amizade com os colegas.
“Eu tô muito muito bem, gosto mesmo daqui e não falto! Se eu faltar só se for por problema de saúde. A atividade que eu mais gosto é a corrida.” Terezinha das Graças
Mas se engana quem pensa que apenas os idosos participam do SOE. A Isabella Silva, de 25 anos, começou a participar do grupo há pouco tempo, por recomendação da ginecologista.
Isabella teve um câncer há 5 anos atrás, e hoje faz acompanhamento para esclerose múltipla, por isso, a necessidade de fazer exercícios todos os dias. Mesmo com pouco tempo de participação do projeto, ela já se sente acolhida e percebe melhoras na sua disposição.

Realidade negligenciada
experiências de Terezinha e Isabella mostram como a atividade física pode transformar a rotina e a saúde de quem consegue participar do projeto. Porém, nem todos conseguem ter acesso a programas como esse, mesmo que gratuitos. Os dados do Ateliê de Ideias, de 2019, indicam que 83% dos moradores do Território do Bem não participam de atividades oferecidas em espaços públicos, seja por falta de acesso, informação ou estrutura.
Ainda no Território do Bem, no morro do Jaburu, Raimunda Nascimento, de 74 anos, é pré-diabética. Devido à sua artrose no joelho, a aposentada não tem dificuldades somente para se locomover até os locais onde ocorrem as atividades coletivas, mas também para realizar tarefas básicas do dia a dia, como suas consultas médicas e compras no mercado.

Os problemas de saúde de dona Raimunda se intensificaram há 2 anos atrás, justamente quando ela precisou parar de realizar exercícios no Núcleo de Integração Social da Pessoa Idosa (NISPI). Em abril deste ano, um educador físico da Unidade de Saúde chegou a visitar Raimunda e fazer cerca de 1 hora de exercícios domiciliares com ela, porém, já são 7 meses de espera para que ele retorne.
Enquanto isso, Raimunda tenta praticar seus exercícios e movimentos em casa e, quando necessário, pede ajuda de familiares e vizinhos. Ouça o relato da moradora de Jaburu.
Direito ao lazer e ao esporte
O direito ao lazer, esporte e à saúde fazem parte dos direitos fundamentais, garantidos na Constituição Federal de 1988, no Art 6°. Esses direitos agem não só para a construção de uma saúde física, mas também mental, promovendo a integração social. Caso esses direitos não estejam sendo respeitados pelas instituições governamentais, a população pode e deve procurar a Defensoria Pública.
Para a defensora pública Mariana Sobral, quando esses direitos estão sendo aplicados, garante ao cidadão uma vida plena e saudável, não apenas física, mas também mental. Assista ao vídeo da defensora explicando como esse direito funciona na prática e em quais casos deve buscar a Defensoria Pública.
Quando se restringe o acesso ao lazer, à segurança e ao cuidado, pode ocorrer sofrimento psíquico. Para a psicóloga Crislaine Oliveira, intervenções eficazes são aquelas que tratam o indivíduo, mas, sobretudo, transformam o espaço e validam a experiência de quem vive na margem.
Mesmo com a presença de profissional e um público engajado, o SOE de Consolação e outros bairros do Território passam por dificuldades: os alunos aguardam reforma da quadra poliesportiva da praça Judith Coutinho e também a construção de um Módulo, para que seja possível guardar os equipamentos com segurança. Assista o relato do professor Bernardo Maia sobre a dificuldade de locomoção com os materiais.
A ordem de serviço da obra de execução da quadra poliesportiva e de outras melhorias da praça Judith Coutinho foi assinada no dia 28/11/2024, com 240 dias para execução. Porém, a obra ainda não foi finalizada. A Prefeitura de Vitória informou que o prazo contratual é fevereiro de 2026, porém a obra poderá ter sua entrega antecipada, ainda sem data definida. A Secretaria de Saúde de Vitória, responsável pelo SOE, não respondeu sobre a previsão de entrega do módulo de Consolação.
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