Apresentação do Grupo de Carimbó na 2ª Caminhada Ecológica do Bem, no Circuito Verde Jaburu – Fofo: Thamyres Valadares
Eventos culturais que acontecem durante o ano são essenciais para reunir a comunidade e fortalecer a cultura popular e tradicional do Território do Bem.
Por Daniel Chiabai e Julia Galter
Com amor em alto relevo, nas expressões ou no sentido físico, o Território do Bem é sinônimo de valorização das mais diversas culturas reunidas em sociedade. Não importa se é no início, no meio ou no final do ano, todos esses momentos se tornam cruciais e datas carimbadas para celebrar a felicidade e a cultura popular no Jaburu.
Quando destacamos essa valorização, os moradores se tornam os personagens principais na formação dessas grandes celebrações, que são capazes de juntar toda a comunidade como forma de união e resistência. Separadas por períodos sazonais anualmente, mas conectadas pelo mesmo propósito, essas manifestações dão vida ao Território.
Algumas são representadas pelo grupo que mostra a força das mulheres por meio da música, como o Carimbó pelo Núcleo de Integração Social da Pessoa Idosa (Nispi Jaburu). Já em outras, a folia toma conta e a festa reúne toda a comunidade, como o tradicional Carnaval. E se você quer celebrar com direito a uma noite de comidas típicas da época mais gostosa do ano, a tradicional Festa Junina é a pedida certa.
Realizados e mantidos em sua grande maioria pelos próprios moradores, esses movimentos se destacam entre as atividades mais cobiçadas do ano na comunidade, criando uma identidade única e autêntica para o Jaburu.
Grupo de Carimbó: as mulheres que transformam o Jaburu
Criado em 2015 pela Assistência Social, o Grupo de Carimbó do Nispi Jaburu é formado por frequentadoras do espaço, mantendo viva uma tradição que expressa a força das raízes amazônicas e afro-brasileiras. O projeto é composto especialmente por mulheres acima dos 50 anos. Com aulas acompanhadas por profissionais de dança e de Educação Física que dominam o assunto, o grupo surgiu unindo cinco mulheres do Jaburu para apresentar a proposta à comunidade, que inicialmente levou o nome de “Amigas do Mirante”.
O encontro era realizado três vezes por semana para o grupo entender e espalhar o movimento que vem da Amazônia. Logo a iniciativa foi tomando forma e se destacando ao realizar apresentações especiais, inclusive na Prefeitura de Vitória. Hoje, 10 anos depois da criação do projeto, aproximadamente 15 mulheres fazem parte do grupo, que agora possui um encontro marcado todos os dias da semana, de segunda a sexta-feira, com duração de 3 horas por reunião. Além disso, é feita uma divisão entre as integrantes mais experientes e as novas, visando e respeitando o processo de entendimento do Carimbó.
Gildete Fernandes Silva, 56 anos, moradora do Território do Bem, é uma das participantes que está presente desde o início e destaca a importância desse movimento social em sua vida. A integrante do Nispi Jaburu conta que vivenciou momentos que jamais tinha imaginado realizar e que, graças ao projeto, conseguiu, como a ida à Prefeitura de Vitória e a viagem realizada para Colatina, especialmente para apresentar e espalhar o Carimbó em outra cidade do Espírito Santo.
De acordo com a moradora, hoje a prática se tornou fundamental em sua vida e ela não falta a sequer um encontro. Destacou, ainda, que o grupo virou uma espécie de família entre as amigas, ajudando-a a superar momentos difíceis, como a perda de seu marido há 4 anos. Por conta do falecimento do esposo e pelo desemprego na época, Gildete acabou entrando em um quadro depressivo. Foi com a ajuda do grupo e da diretora do projeto, Joaquina, que ela conseguiu se reerguer, dedicando e ocupando sua mente no Nispi Jaburu.
Atualmente, Gildete vai a todas as reuniões, ajuda na confecção das roupas com o tecido de sombrinhas na prática do artesanato e dedica seu tempo ao projeto, sendo uma das líderes desde a fundação. Além disso, essa oportunidade a ajudou a sair do quadro depressivo e hoje ela está ativa no mercado de trabalho novamente. A integrante ainda brincou que, se pudesse, levaria um colchão para dormir no Nispi, reforçando ainda mais a importância do local para ela.
Além da integração, o Grupo de Carimbó do Nispi Jaburu é uma manifestação de felicidade das moradoras, que dedicam seu tempo com muito amor à prática. Mais do que um “simples” grupo cultural, é uma oportunidade para muitas mulheres mostrarem seu trabalho.

Festa Junina: se não é em junho, pode ser até em setembro!
Outra manifestação cultural que sempre está presente no Jaburu é a Festa Junina, que reúne muitos moradores em uma noite típica com comidas, caracterização do ambiente e muitas brincadeiras realizadas pela comunidade.
Com início em 2004, a festa acontecia nos quintais locais. Só após a construção do Mirante do Jaburu é que o evento passou a ser realizado no local de forma aberta e mais abrangente. Sebastião Luiz, presidente da Associação de Moradores de Jaburu, mais conhecido como Tião; e Cosme Santos, liderança, presidente do Grupo Nação e condutor de turismo comunitário, foram os idealizadores da festa.
Cosme relata que, após a mudança dos quintais para o mirante, houve um certo receio da comunidade em relação à aceitação e à segurança, fazendo com que a primeira edição não tivesse uma grande participação. Porém, a segunda edição alavancou e contou com vários moradores, obtendo uma aceitação muito maior. Assim, a festa virou um sucesso e se tornou a data mais esperada no bairro.
O mirante já contou com 17 festas juninas que não são apenas para os moradores, estando abertas também aos convidados, de acordo com Tião. Entre as festividades, a celebração do Jaburu conta com comidas típicas do período, brincadeiras para crianças, muita música e dança.
Nos últimos anos, a festa tem acontecido um pouco depois do período tradicional por conta de liberações na prefeitura, muitas vezes sendo realizada em julho, agosto e até setembro. Cosme relata que, mesmo com esses atrasos, a comunidade não desanima e faz questão de lotar o mirante. É um momento em que as pessoas se reúnem para celebrar e festejar, promovendo o encontro de várias gerações em um espaço querido no bairro.
Os direitos que são essenciais nessa história
Essas manifestações culturais que dão vida ao Jaburu, como o Carimbó do Nispi, a Festa Junina, o Carnaval e tantas outras expressões comunitárias, não representam apenas tradição e pertencimento: elas são também a materialização de direitos garantidos pela legislação brasileira e por Tratados Internacionais dos quais o Brasil é signatário.
Tanto a Declaração Universal dos Direitos Humanos (art. 27) quanto o Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (art. 15) reconhecem que toda pessoa tem o direito de participar da vida cultural de sua comunidade, de usufruir de bens culturais e de ver suas tradições respeitadas e promovidas.
Essas garantias são reforçadas pela legislação nacional. A Lei nº 14.835/2024, que atualiza e amplia o entendimento sobre o direito à cultura no Brasil, estabelece que esse direito possui quatro dimensões fundamentais: simbólica, que protege os modos de viver, fazer e criar; cidadã, que assegura a participação da população nas políticas culturais; econômica, que incentiva ações capazes de gerar renda e fortalecer a economia da cultura; e jurídica, que garante direitos autorais, de produção, circulação, memória e preservação das manifestações culturais.
No Jaburu, essas dimensões são percebidas de forma concreta. A preservação do Carimbó pelas mulheres do Nispi não é apenas uma atividade artística, é o exercício direto do direito ao patrimônio imaterial e à autonomia cultural dessas moradoras. Da mesma forma, a Festa Junina realizada pelos próprios moradores mostra o pleno exercício do direito de produzir cultura, de acessar espaços públicos e de fortalecer vínculos comunitários.

De acordo com Maria Gabriela Agapito, Defensora Pública Estadual, que está há 12 anos no cargo, outro marco importante é o Sistema Nacional de Cultura (SNC), previsto no art. 216-A da Constituição Federal. Ele funciona como uma estrutura de colaboração entre o Poder Público e a sociedade civil para garantir que as políticas culturais cheguem a todos os lugares, como o Território do Bem.
A defensora Maria Gabriela ainda reforçou que essa participação social aparece nas decisões coletivas tomadas pelos moradores para organizar festas, gerenciar espaços comunitários e manter vivas as tradições que moldam a identidade local. Esses direitos são garantidos a todos os cidadãos, mas têm atenção especial a grupos historicamente vulnerabilizados — como mulheres, povos tradicionais, comunidades, idosos e juventudes —, exatamente o perfil de muitos dos protagonistas do Jaburu.
Assim, cada passo de dança do Carimbó, cada bandeirinha da Festa Junina e cada festa comunitária não são apenas uma celebração qualquer: elas se tornam a expressão viva de direitos fundamentais que asseguram que a cultura seja não só lembrada, mas vivida, compartilhada e preservada.
- A semente regada pela felicidade: as manifestações culturais que alegram e dão vida ao Jaburu - 6 de junho de 2026
- “Elas no Corre”: aulas fortaleceram autoestima e colaboração de mulheres empreendedoras - 15 de março de 2026
- O Transporte Público como meio de exclusão para moradores do Território do Bem - 12 de março de 2026


Comment here