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A educação que muda o hoje no Território do Bem

“Tudo que é novo, tudo que é transformador nos causa medo, mas no estudo, a gente é como uma criança: primeiro dá o passinho, engatinha, anda… e depois está correndo, porque o conhecimento é libertador e te coloca em lugares que você nunca pensou em chegar.” Cris Pontiá.

Reportagem: Bruno Caetano, Mayco Fernandes

No Território do Bem, a educação está em quem acorda cedo, de quem cuida e carrega filho no colo, de quem encara ônibus cheio, de quem luta com a rotina e mesmo assim insiste em aprender e ensinar.

Os corredores das escolas do bairro carregam histórias de quem busca um começo e um recomeço. Quando olhamos de perto, percebemos que essa educação não acontece só dentro da sala. Ela se espalha pela rua, pelas casas, pelas organizações e pelos grupos que fazem o bairro crescer.

A Constituição garante o direito à educação. Mas é aqui, no dia a dia das escolas do Bonfim, da Penha, do Itararé, do Gurigica, do Jaburu, da Floresta, do Consolação, da Engenharia e do São Benedito, que esse direito, vira disputa, e também vira conquista.

Hoje, as escolas municipais da região atendem mais de 2.700 estudantes, entre eles crianças, jovens e adultos buscando espaço para crescer. Mas quem vive o ensino público daqui sabe: não existe receita pronta, existem caminhos.

Educação de Jovens e adultos

Um desses caminhos é o Educação de Jovens e Adultos (EJA). Quem volta para a escola já com mais idade, volta por muitos motivos, mas quase sempre por um que pesa mais: a vontade de mudar a própria vida. No EJA, ninguém é novato na vida. São adultos que chegam carregando trajetórias inteiras, responsabilidades, aprendizados e também alguns medos de recomeçar.

Mesmo com medo, a estudante de direito, Cris Pontiá, voltou para a sala de aula depois de muito tempo. Cris parou cedo. A vida real, aquela que a gente enfrenta de peito aberto, exigiu que ela deixasse os cadernos de lado. “Eu fui mãe muito nova, então eu tive que parar de estudar”, conta.

Mas a vontade de aprender nunca morreu. Com os filhos crescidos e mais independentes, a pergunta voltava: o que falta? Ela percebeu que o conhecimento é a chave que abre a porta da fala e da resposta.

“O conhecimento não nos faz falta no dia a dia, né? Você vê uma matéria, você vê uma reportagem, você passa por situações no dia a dia e isso acaba… Você fica sem saber se comunicar, sem saber falar, sem saber se expressar.”

Aos 35 anos, Cris encarou o desafio, fez a prova do ProEJA no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo (IFES), e não parou mais. Conseguiu seu certificado de Ensino Médio e Técnico em Segurança do Trabalho, usando a nota do ProEJA junto com a do ENEM. Uma virada de chave!

Foi quando ela encontrou o projeto Periferia Formada, que hoje é a ponte para o ensino superior. “Só esse ano já foram 20 pessoas indicadas. Ano passado, foram 25,” revela a  presidenta do Instituto Conexão Perifa, Crislayne Zeferina.

Endereço vira identidade na sala de aula: projetos diferenciados

A região, que abrange nove comunidades – Consolação, São Benedito, Itararé, Bonfim, Bairro da Penha, Gurigica, Jaburu, Floresta e Engenharia, tem 31 mil habitantes, cerca de 10% da população de Vitória. E as histórias vividas nas ruas viram temas em sala de aula.

Os professores apostam em projetos que conectam a comunidade às histórias de cada aluno para fazer a diferença. Foi assim que o projeto Cria Bonfim nasceu, segundo a professora de Ciências e Biologia, Lorraine Garcia, para trabalhar “a identidade territorial, a identidade racial também, a territorialidade e a empatia.”

Da teoria à prática, os alunos foram para a rua. Fizeram caminhadas, pesquisaram com moradores antigos, ouviram as histórias do bairro. O resultado? O entendimento de que o bairro tinha muito a dizer. Lorraine destaca esse  protagonismo das crianças

“Eles pesquisam, eles produzem o material, e eles conscientizam os alunos dentro da própria escola, e eles propõem propostas de intervenção.”

Essa conexão profunda com o território é a força da gestão na EMEF Prezideu Amorim. A diretora Rúbia Xibili, moradora antiga do morro de Jucutuquara, sabe o que significa o pertencimento.

“Eu subo esse escadão, chamo eles pra terminar a aula… eles começaram a perceber uma intimidade, sabe, assim, tipo assim, eu sou visto, sabe, eu importo. Eu tenho uma casa que eu não preciso ter vergonha e eu moro num lugar que eu não preciso me esconder. O território que eu moro é difícil, mas quem está lá dentro da escola compreende.”

E esse despertar da identidade dos alunos também acontece na EMEF Paulo Roberto Vieira Gomes através da música. Em 2025, o  professor de Música Vinícius Ferreira usa o som para costurar a identidade. De acordo com Vinicius, a inspiração foram as escolas de samba ao entorno do bairro São Benedito

Professor Vinícius e a turma

Para o professor, a música é a arte que tira o aluno da violência. Ela ajuda em todas as outras áreas cognitivas, Português, Matemática, Arte, mas, principalmente, é um “canal pra você estar acabando com violência, acabando com preconceito, acabando com o bullying”.

Educação nasce do acolhimento na educação especial

A educação tem várias frentes, e numa região tão diversa, a inclusão também tem seu espaço. Na Educação Especial, a professora Francilene Rodrigues revela o segredo para fazer o aluno se destacar.

Na sala onde atende alunos com Deficiência Intelectual (DI) e Autismo (leve e moderado), a regra de ouro é: “A gente tem que primeiro acolher e aprender com eles como que eu vou ensinar.” Não existe um método único. “Tem aluno que você tem que saber lidar com ele para poder ensinar, porque senão você não consegue.”

Francilene precisa criar metodologias diferenciadas: alfabeto móvel, vídeo, letras, pranchas de letramento, atividades diferenciadas. É um trabalho de artesanato pedagógico, feito de mãos dadas com o professor da sala regular e, principalmente, com a família.

Alfabetização enfrente desafios

Os números de Vitória mostram que o caminho de persistência e luta está gerando frutos. A capital alcançou a 2ª posição no ranking nacional de alfabetização de crianças até 7 anos, com 73,2%. (Nota da Redação: dados pesquisados em 2025). Mas mesmo com os avanços na Alfabetização, os desafios continuam.

Na escola de Tempo Integral (TI) Paulo Roberto Vieira Gomes, a diretora Silvana Freitas, que na época ajudou a implantar o modelo TI, vê a potência dessa educação que integra.

Em 2025, ela apontava o desafio central: “O maior desafio que nós temos é ver todos os nossos estudantes lendo e escrevendo.” A meta é 100% de alfabetização. Para isso, investem em laboratório de informática, dupla docência e muitos jogos.

O cotidiano da escola, porém, é maior que o currículo. Ludmila Ribeiro, moradora do Bairro da Penha, sabe bem disso. Ela via a escola virar um “caldeirão” de conflitos no passado. Hoje, como “tia Lu” da comunidade, ela é a ponte.

“As pessoas costumam te olhar diferente,” diz ela sobre a dificuldade de quem é de fora. Mas ela, sendo moradora, cria o vínculo: “É tipo um acolhimento, vamos lá ver a tia Lu.”

A escola se tornou um ponto de apoio e resolução de problemas que vêm de fora, segundo ela, o Prezideu, que é uma das melhores estruturas da região, hoje tem portões abertos. A quadra é usada pela comunidade, com capoeira, jiu-jitsu e futebol nos fins de semana. Essa abertura é um investimento social poderoso, garantindo que o território use o que é seu.

No entanto, o maior desafio, segundo Ludmila, é a parceria constante da família. “Gostaríamos que fosse muito mais, fosse além, fosse uma parceria mesmo constante durante o ano todo.”

Lenimar e as companheiras de trabalho

Moradora do Bairro da Penha, Lenimar de Paula realiza há uma década o sonho de trabalhar em uma cozinha escolar. Como merendeira da Escola Paulo Roberto, ela não apenas prepara refeições, mas cultiva laços: para ela, os alunos são como seus próprios filhos e netos. Entre panelas e sorrisos, Lenimar revela o segredo que faz as crianças pedirem bis e até a receita para levar para casa: “Nosso tempero é o amor e o carinho”. Um exemplo de que a educação também se faz pelo paladar e pelo acolhimento.

A educação como instrumento de justiça

O defensor público Renzo Gama coloca a educação no centro da discussão de direitos.

“Educação é o principal instrumento para a superação de vulnerabilidade e redução das desigualdades.” Para ele, sem educação, as pessoas ficam limitadas. Quanto maior o nível de estudo, maior o leque de oportunidades, tirando o morador da rotina dos “trabalhos mais braçais”.

A Defensoria Pública atua tanto em casos individuais, como garantir uma vaga ou um atendimento de Educação Especial , quanto em ações coletivas, pressionando o poder público para melhorar a rede de ensino. Tudo isso prova que a educação no Território do Bem é construída na teimosia e na coragem.

É um direito que não espera só pela lei, mas que é conquistado diariamente, escada por escada, sala de aula por sala de aula, por quem insiste em acima de tudo, aprender.

Calango Notícias

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