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EJA no Território do Bem: quando a educação se torna recomeço

No Território do Bem, moradores retomam seus estudos e mostram como a Educação de Jovens e Adultos transforma vidas e fortalece trajetórias

Por Maria Eduarda dos Santos Pereira e Lívia Athaydes Campista

No Território do Bem, formado por bairros que cresceram vivenciando lutas por direitos básicos, a Educação de Jovens e Adultos (EJA) chega como política pública e também como reparação. A região, conhecida pela força comunitária e por projetos sociais que mobilizam seus moradores, abriga estudantes de perfis muito diferentes, mas que compartilham o mesmo sentimento: o desejo de aprender.

A EJA é uma modalidade da educação básica brasileira criada para garantir o direito à escolarização de pessoas que não puderam estudar na idade considerada “regular” ou que precisaram interromper os estudos por motivos diversos. Funciona como uma forma de retomar a educação de maneira mais rápida, flexível e adaptada à realidade de adultos, trabalhadores, mães, pais e jovens, que enfrentam dificuldades para permanecer na escola tradicional.

Nas salas de aula da EJA, espalhadas pelo território composto por nove comunidades, mães solo, trabalhadores, jovens que precisaram interromper os estudos e idosos que sempre desejaram aprender encontram acolhimento, escuta e uma nova chance. Ali, entre o cansaço do dia e a vontade de recomeçar, surge uma educação feita de coragem, comunidade e transformação. A ex-aluna do EJA Thamyres Teixeira, de 22 anos, conta como foi o pontapé inicial para ela recomeçar os estudos.

 “Quem me incentivou foi meu esposo. Ele comprou meus materiais e falou ‘você vai’. Eu não queria ir, e fui com medo mesmo.”- Thamyres Teixeira, ex-aluna.

Muitos estudantes chegam direto do trabalho, cansados e com pouco tempo para descansar. Outros enfrentam problemas de transporte, violência urbana ou falta de apoio familiar. Há quem chegue com medo de errar, por conta de experiências traumáticas com a escola anos atrás. Não por acaso, evitar a evasão escolar é um dos maiores desafios da modalidade, justamente porque o desgaste cotidiano se impõe com força.

Ainda assim, quando olhamos para o futuro, os estudantes permanecem. E permanecem porque encontram professores que entendem suas histórias. O Professor de Educação Física Odilon Lima destaca alguns dos desafios que os estudantes enfrentam para conseguirem frequentar as aulas.

“Muitos estudantes trabalham e têm essas dificuldades. Chegam atrasados na escola, saem às 18 horas do trabalho e chegam às 19 horas. Então, quer dizer, chegam na correria e isso dificulta um pouco o aprendizado. Mas, são realidades que nós temos que está enfrentando por conta das demandas que nós planejamos.”

O direito que não pode ser negado

Para além da sala de aula, existe o olhar jurídico que protege esse direito. A defensora pública estadual Adriana Peres destaca que a EJA é um direito constitucional e essencial para a redução das desigualdades. Ela explica que a Defensoria é uma instituição criada pela Constituição Federal, que garante não só o acesso à justiça, como os direitos fundamentais de crianças, adolescentes e jovens, e que pode ser acionada para prestar assistência na garantia de diversos direitos, como à Educação.

A presença da EJA no Território do Bem representa muito mais do que uma oferta educacional: ela reafirma que todos têm direito à educação, independentemente do tempo que se passou. As salas de aula se tornam espaços de convivência, troca, escuta e motivação. A educação transforma a relação do indivíduo consigo mesmo, com o trabalho e com a comunidade, criando caminhos que fortalecem o território como um todo.

A pedagogia da EJA se baseia na valorização das vivências dos estudantes. Os profissionais que atuam na modalidade compreendem que cada adulto e jovem traz consigo um repertório de vida que precisa ser considerado no processo educativo. Assim, as aulas são pensadas de forma flexível, respeitando ritmos, trajetórias e necessidades específicas. O objetivo não é apenas transmitir conteúdos, mas oferecer ferramentas para que os alunos se reconheçam como sujeitos capazes de aprender e transformar suas próprias histórias.

A pedagoga Daniella, que atua no EJA no Território do Bem, destaca que o trabalho com jovens e adultos exige sensibilidade, escuta e compreensão profunda das trajetórias que cada estudante carrega. Segundo ela, muitos alunos chegam depois de longos períodos afastados da escola, marcados por experiências difíceis, responsabilidades precoces e inseguranças sobre sua própria capacidade de aprender. Nesse contexto, o papel pedagógico ultrapassa o conteúdo e alcança a dimensão humana.

“A gente abraça essa questão. Se importa muito com essa questão e se faz presente. A EJA é criada exatamente para isso, para a educação e ensino onde eles não tiveram a oportunidade de estudar na idade certa. E a gente faz todo esse trabalho. Para eles entenderem que aquela sala é para eles e que eles são pertencentes daquele espaço, e que devem ocupar aquele espaço é muito mais importante.”, afirma a pedagoga Daniella.

A educação que acolhe: quando o professor vira apoio

No cotidiano da escola, é possível acompanhar de perto as transformações que acontecem na vida dos estudantes. Os avanços vão muito além das habilidades de leitura, escrita ou cálculo. Há mudanças evidentes na autoestima, na autonomia, na forma como os alunos se reconhecem como sujeitos de direito e retomam planos que haviam deixado para trás. Cada pequena conquista representa um passo importante para quem já acreditou que não teria mais oportunidade de estudar.

Ao longo do percurso, a Thamyres percebeu mudanças profundas na própria vida. A confiança que antes parecia frágil foi se fortalecendo à medida que avançava nos conteúdos, participava das aulas e celebrava pequenas conquistas. Finalizar a EJA representou muito mais que receber um certificado: foi a confirmação de que ela era capaz de reescrever sua história. Por conhecer de perto essas dificuldades, ela faz questão de incentivar quem está na dúvida, lembrando que o primeiro passo, embora difícil, pode transformar vidas.

O professor Odilon Lima afirma que uma de suas maiores motivações é poder ensinar pessoas que, mesmo após anos afastadas da escola, ainda carregam o desejo de aprender. Para ele, ver estudantes de idades avançadas retornando aos estudos é uma demonstração de coragem e determinação, e isso o inspira diariamente a continuar na modalidade.

“Encontrar pessoas com idades avançadas, que estão buscando a aprendizagem, buscando aprender a ler e escrever. Então isso já é uma motivação muito grande, que me dá para poder trabalhar com as turmas da Educação de Jovens e Adultos.” – Odilon Lima.

Calango Notícias

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