Foto: Emilly Dias
Visita dos Curumins Guerreiros ao CMEI Pedro Feu Rosa integra projeto de educação intercultural previsto em lei e reforça a diversidade capixaba.
Reportagem: Emilly Dias Dos Santos Maria
Em uma quinta-feira comum do mês de agosto de 2025, caminhos distantes se aproximaram no Território do Bem. Foi assim que os passos ancestrais do grupo indígena, Curumins Guerreiros, de Aracruz, chegaram ao CMEI Dr. Pedro Feu Rosa, no Bonfim, e encontraram raízes férteis para plantar lições ancestrais, que a pressa urbana insiste em apagar.
Trazer à memória e reflexão através de cantos e movimentos não é trabalho feito em um único dia de apresentação do povo Tupiniquim. Ela nasceu antes da visita, com um planejamento pedagógico que a professora de música do CMEI, Lilian Lovatti, já trilhava há meses com os alunos, na Educação para as Relações Étnico-Raciais (ERER), respaldado pelas leis 10.639/03 e 11.645/08.
O intercâmbio cultural é uma iniciativa integrada de um conjunto de ações planejadas pelo CMEI dentro do Projeto Institucional “Capixabando com as maravilhas do Espírito Santo”, que em 2025 teve como foco a cultura capixaba e, no primeiro semestre, dedicou-se aos estudos sobre as culturas indígena e afro presentes no estado.
A diretora da instituição, Sandrely Buril, reforçou a importância da ação, que trabalhou em ampliar o repertório cultural das crianças. “A experiência com o grupo Curumins Guerreiros dialoga diretamente com o Projeto Institucional do CMEI, pois ambos compartilham o compromisso de formar crianças críticas, sensíveis e respeitosas à diversidade”, relatou a profissional.
A visita dos Curumins
A ponte necessária para selar o encontro foi a artista plástica e produtora cultural Renata Apolinário, que atua junto à Associação Indígena Tupiniquim-Guarani (AITG). Trabalharam em conjunto, educadora e produtora, para que as crianças pudessem aprender para além dos livros.
O grupo indígena formado por 5 adultos e 15 crianças, coordenado pelo indígena Ronivaldo Pereira, da aldeia Caieiras Velha, foi recepcionado por olhares atentos e curiosos das crianças do CMEI.
“As crianças ficaram impressionadas com tudo”, lembra a Lilian. “Elas tocavam nas penas, nas palhas, nas sementes. A criança é muito sensorial, muito musical. E isso trouxe um encanto difícil de descrever”.
Essa articulação do intercâmbio destaca um objetivo do grupo indígena em desmitificar estereótipos, sejam os reproduzidos pelo imaginário popular ou escolar. Os Curumins Guerreiros já somam mais de 40 anos de existência, proporcionando um espaço de sociabilidade para crianças e adolescentes da aldeia, estendendo essa vivência para possibilitar o conhecimento intercultural do estado e dos pequenos do Bonfim.

De certa forma, esperavam mesmo. A professora havia preparado todos para esse momento: documentários, brincadeiras, o João Bananeira, vídeos sobre o Congo indígena. Tudo dentro do Projeto Institucional estabelecido. As crianças haviam visto, ouvido, imaginado. Mas ali, diante do povo originário, a imaginação finalmente ganhou significado.
Preparação pedagógica
A iniciativa não se resume ao momento da visita. Trata-se de um percurso formativo consolidado na Rede Municipal de Vitória, que recebe assessoramento da Comissão Permanente de Estudos Afro-brasileiros (CEAFRO) e da Comissão de Educação das Relações Étnico-Raciais (CERER).
A escritora Noelia Miranda Araújo, representante da Comissão Permanente de Estudos Afro-brasileiros (CEAFRO) e referência na área, reforça que experiências como a do CMEI Pedro Feu Rosa são resultado de um processo de preparação e formação docente.
O processo se dá quando as escolas procuram a instituição para receber assessoramento e planejar ações alinhadas à educação antirracista. A formação do CEAFRO colabora para que educadores entendam como as culturas afro e indígenas podem integrar o currículo de forma contínua e não pontual.
Noelia enxerga na iniciativa do CMEI um exemplo a ser seguido. “Então, eu acredito que as unidades escolares, todas elas, têm a possibilidade de também fazer o assessoramento e ir em busca desses laços, que são laços possíveis e são laços que são legítimos”, afirma a professora.
Esses laços são quantitativos. Segundo dados do Censo 2022, do IBGE, o Espírito Santo possui 14.410 indígenas pertencentes a diferentes aldeias capixabas, correspondendo a 0,4% da população estadual. Em Aracruz, se destaca pela maior concentração do Estado, com 7.425 pessoas indígenas, 51,5% da população total. Reforçando assim a importância de uma educação plural e inclusiva, entendendo a importância histórica e social dessa educação antirracista.
Caminhos abertos
Com a tranquilidade de quem vivencia todos os dias a ponte entre culturas, a representante da Associação Indígena Renata acredita em como a cultura indígena não se separa do cotidiano usual. E foi por meio dessa ligação que a escola, antes distante geograficamente da aldeia, foi convidada a adentrar um território de histórias e práticas tão antigas quanto as próprias raízes capixabas.
E foi durante a integração de culturas que a professora Lilian recebeu um cocar, colocado com solenidade pelo mestre indígena do grupo. E um dos alunos recebeu um colar artesanal, entregue com a delicadeza de quem oferece história, identidade e futuro ao mesmo tempo.
Objetos que representam mais do que memórias, segundo a produtora cultural. “[…] um colar que eles fazem, que eles preparam de sementes, ele não tem uma única função ou função específica de decorar ou ser admirado, mas ele tem funções de proteger, função de abrir algum caminho, algum movimento que não só é essa coisa visual ou de informação racional, mas também de informações mágicas sagradas”, descreveu Renata.
Através de um intercâmbio cultural, uma ponte é criada com uma educação intercultural, responsável e alinhada às políticas públicas nacionais e, sobretudo, conectada às realidades culturais que atravessam o Espírito Santo. E assim, caminhos se abrem para um novo futuro no Território do Bem.
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