Caminhar pelas ruas do Jaburu e de São Benedito ganhou um novo motivo para olhar para cima. Em alguns trechos das comunidades, no topo de casas pelo caminho, a paisagem ganha uma surpresa colorida: em vez do azul padronizado das caixas d’água, o cenário exibe cores vibrantes e a identidade das comunidades. O que começou como uma solução improvisada durante a pintura de um mural virou o projeto Arte na Caixa d’Água, idealizado pelo artista plástico e urbano Handerson Chic, o Chic.
A iniciativa já transformou a paisagem de dez residências: seis caixas ganharam arte no Jaburu e, quatro, em São Benedito. O objetivo é ir além do chão e dos muros, usando a arquitetura cotidiana como suporte para a arte urbana.
Da observação de rua ao “estalo” no mural
Nascido e criado no Morro do Macaco, em Vitória, CHIC iniciou sua caminhada na arte em 2008, após uma oficina de grafite no Centro de Referência da Juventude (CRJ). Ao longo dos anos, desenvolveu uma linguagem própria marcada pelas famosas casinhas coloridas, símbolos de pertencimento e resistência nas periferias.
A ideia de usar as caixas d’água surgiu de forma orgânica. Ao pintar um mural no Jaburu, o artista notou que a caixa d’água logo acima da parede contrastava com a obra por causa da sua cor comercial. Para integrar o objeto ao painel, ele decidiu pintá-la com os mesmos traços e paleta do mural.
A partir dali, percebeu a oportunidade: transformar um item essencial e presente no topo de quase todas as casas em uma tela de destaque.
“A ideia é as pessoas passarem e verem minha arte no alto — o meu trabalho e o de futuros parceiros —, trazer mais cores e mais vida para um lugar esquecido das casas, mas que muitas vezes está à vista, com uma cor que não demonstra a identidade da comunidade, e sim a de uma marca”, explica Chic.
Articulação comunitária e acesso às alturas
Para além do olhar artístico, a seleção das caixas d’água exige planejamento e diálogo com a comunidade. O processo envolve articulação local para autorização e garantia de acesso logístico aos locais de pintura.
“A escolha da caixa acontece quando a gente vai fazer um grafite no entorno da casa. As lideranças comunitárias intermediam o contato com as famílias e nós explicamos o projeto e a arte que será produzida aos moradores. Como é preciso ter acesso à caixa — seja por dentro da casa, por uma varanda ou estrutura similar —, fazemos esse alinhamento prévio”, detalha o artista.
Aprovação de quem mora no território
O impacto visual e afetivo das intervenções já é sentido por quem vive no território. A moradora do Jaburu, Cléria da Silva Chacrinha, que teve a caixa de sua casa grafitada, aprovou a mudança de cenário:
“Eu achei incrível, deu vida à paisagem. Dá gosto em olharmos onde era apenas uma velharia suja dar lugar a um espaço colorido, uma arte assinada por um artista”, comemora Cléria.
Em São Benedito, a moradora Ivani Ribeiro gostou tanto da transformação que até se arrependeu de não ter escolhido a própria casa primeiro:
“Me perguntaram se podia fazer uma arte na caixa d’água, e eu deixei fazer na casa da minha filha. Quando eu vi o resultado, achei tão lindo! Não imaginei que ficaria tão bonita. Se eu soubesse, tinha falado para fazer na minha caixa também”, relata Ivani.
Fortalecendo o circuito cultural e o turismo de base comunitária
As intervenções chegam para somar diretamente aos roteiros de Turismo de Base Comunitária que já movimentam a região.
No Jaburu, as novas obras integram o percurso do Circuito Verde Jaburu e em São Benedito, conectam-se à Rota de São Benedito, onde os pontos do trajeto já contam com painéis e murais assinados por diversos artistas. As caixas d’água pintadas agregam camadas a essa vocação natural das duas rotas, consolidando o Território do Bem como uma grande galeria de arte a céu aberto.
Ao colocar a arte no topo das casas, o projeto democratiza o acesso à cultura para quem circula diariamente pelas ladeiras e becos, transformando o trajeto de moradores e visitantes em uma experiência estética e de valorização do território.
Próximos passos
O projeto piloto no Território do Bem é apenas o começo. Atualmente, o artista trabalha para captar recursos e levar as pinturas para mais 20 caixas d’água divididas entre o Jaburu e São Benedito.
A intenção de Chic é consolidar essa etapa no Território do Bem e, em seguida, expandir a ação para outras comunidades de Vitória, com a meta de levar o formato para diferentes municípios do Espírito Santo e outros estados, somando forças com novos artistas e parceiros para ocupar o alto dos morros com cor e significado.
Com informações: Gabhy Almeida
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