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Uma organização que mudou a trajetória de Jaburu

Foto: Thais Gobbo

Jhones Teixeira Silva tem 26 anos. Ele nasceu em Jaburu e pelas escadarias, becos e vielas da comunidade cresceu. Brincou com os amigos na rua, desceu o morro para frequentar a escola Aristóbolo Barbosa Leão. Nunca se deu conta das dificuldades que a comunidade enfrentada. Mesmo estando no centro da capital, bem perto de bairros onde moravam os “abastados” da cidade, não tinha sequer uma rua para se chegar ao alto do morro.

Jhones Silva
Foto: Thais Gobbo

Quando Jhones tinha apenas cinco anos de idade um grupo da comunidade já se reunia para mudar esta realidade. Era o Grupo Nação que nascia para mudar a trajetória do morro onde a família de Jhones, Seu Sergio Pedrosa e D. Maria Aparecida Teixeira e os três filhos, vivia.

Jhones cresceu assistindo à mobilização do Grupo Nação que, pouco a pouco, ia registrando conquistas importantes como o projeto Caminhando Juntos (Cajun) onde Jhones ingressou como educando e hoje é coordenador. Reconhecendo o papel importante do Grupo, ele não hesitou em atender ao convite para participar da organização, onde hoje é vice-presidente.

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“O Grupo mexe com a vida das pessoas, faz a diferença para o bem. Fui crescendo com uma visão de futuro melhor devido à luta do Grupo.  Hoje eu convido meus amigos jovens a participar também pois é muito importante. A gente encontra outro caminho e aprende a olhar para baixo de cabeça erguida”, afirma Jhones.

E cita a transformação de pontos viciados de lixo em praças que servem para o lazer dos moradores, por exemplo, o Parque do Bem e a Praça e Horta Colaborativa Canto da Pedra, e as ações educativas dos projetos Eco-Cine e Eco-Ação, de desenvolvimento cultural e conscientização que contribuem para elevar a autoestima dos moradores. Jhones tem uma relação forte com a comunidade. “Aqui tem muita coisa boa. Já fiz a experiência de morar fora, mas acabei voltando. Eu não saio de Jaburu e Jaburu não sai de mim”, afirma com orgulho.

Surgimento

A diferença que o Grupo Nação fez na vida de Jhones Teixeira se reflete em todo a comunidade. Cosme dos Santos, um dos fundadores e hoje presidente, conta que o grupo começou a se reunir em 1998. “Estávamos insatisfeitos com a inatividade da Associação de Moradores e o abandono da comunidade por parte das instituições públicas”.

Cosme santos
Foto: Thais Gobbo

Além de Cosme, participavam também Jorge Félix, que não mora mais em Jaburu, e Valdir Bento, já falecido. A empolgação com o grupo era grande e o nome veio dessa animação. “Falávamos cheios de orgulho: somos uma nação. E esse ficou sendo o nome do grupo”, afirma o presidente.

Cosme lembra que, após um longo tempo de distanciamento do Grupo Nação com a Associação de Moradores, ele concorreu ao cargo de presidente da Associação e sua chapa foi a vitoriosa. Como estratégia para melhor atender a comunidade, Cosme estreitou laços com um dos membros da diretoria da gestão anterior da associação, trazendo o morador Sebastião Luiz Castro para ajudá-lo no então mandato.  “Ao ganhar a presidência, convidei o Sebastião para nos ajudar porque eu já vinha observando seu empenho e trabalho como diretor, e projetava que ele tinha potencial para ser o presidente da associação no futuro. Na minha reeleição como presidente da associação, ele foi o meu vice. E depois ele foi o presidente, e eu voltei a ser presidente do Grupo Nação”

Sebastião Castro
Foto: Thais Gobbo

Essa atitude tornou a organização comunitária mais forte, com a união do Cosme do Grupo Nação com o Sebastião, da Associação de Moradores”. A dupla, que caminha junto até hoje, foi batizada carinhosamente pelos moradores de “Cosme e Damião”.

Sacramentada a parceria, o próximo passo era pensar na formalização do Grupo Nação, que só aconteceu em 21 de abril de 2005. “Procuramos a Prefeitura que começava a gestar o projeto Terra e incluímos algumas das nossas reivindicações que fizeram grande diferença para Jaburu” afirma Cosme.

O Projeto Terra propunha intervenções urbanísticas e sociais principalmente nos morros da capital. Cosme destaca a abertura de uma via que leva ao alto da comunidade, a construção do Cajun e o Residencial Jaburu que realocou moradores das áreas de risco, como conquistas importantes.

“Foi uma revolução para a comunidade. Depois disse veio a creche, o centro de convivência de idosos, o endereço cidadão, a reforma dos acessos, e por último a regularização fundiária, obras de contenção de pedras e a reforma do Cajun”. Cosme destaca a conquista do Centro Comunitário e muitos projetos sociais que acontecem na comunidade, frutos de parcerias com a Associação Ateliê de Ideias, Fórum Bem Maior, Associação de Moradores e outras organizações.

Maria Josée
Foto: Thais Gobbo

Outra integrante assídua do Grupo Nação é a moradora Maria José Barreto. Ela destaca uma das conquistas resultantes da articulação do Grupo Nação com o poder público, o CEMEI Aécio Bispo dos Santos, inaugurado em 2017. “Como integrante, acompanhei a luta do grupo para que essa creche fosse inaugurada. Desde a ordem de serviço, começo de obra, paralização por burocracia, e a comunidade se sentindo desamparada. Denunciamos o descaso para a imprensa, que veio aqui duas vezes mostrar o abandono, foi uma luta de mais ou menos dez anos, antes da inauguração em 2017. Foi uma conquista para a comunidade, alcançada pela persistência do Grupo Nação”.

Rádio DNA

As rádios comunitárias tem um grande papel social nas comunidades em que são veiculadas. Foi pensando nisso que o Grupo Nação apoiou, através de seus projetos, a criação da rádio comunitária DNA, em Jaburu.

Diana e Israel
Foto: Thais Gobbo

Idealizada por Israel de Souza, Diana Andrade, Cosme Santos e Jhone Silva, a DNA, foi lançada no início de 2014, e é veiculada através de caixas nos postes da comunidade e de bairros da vizinhança. Quem conta essa história é Israel, outro jovem para quem o grupo fez muita diferença. “A Rádio DNA nasceu em 2012 e em 2014, com o apoio e recursos do Grupo Nação, conseguimos fortalecer nosso projeto da rádio comunitária”, afirma.

Na época, foram 20 pequenas caixas de som instaladas em postes de diversos pontos da comunidade, um computador, um amplificador que constituíam a rádio. Hoje são 40 caixinhas com um alcance por quase toda a comunidade de Jaburu.

Com uma programação diária e ao vivo de duas horas, a rádio divulga informações de interesse da comunidade como vagas de emprego, vagas em cursos e oportunidades dos projetos sociais. “Tudo que é de interesse público a gente sempre divulgou, principalmente buscando fortalecer os comerciantes locais”, disse Israel.

Para conseguir concluir a faculdade de Direito, Israel disse que teve de parar um pouco com a rádio, mas que agora, em janeiro de 2021, pretende voltar com a programação diária. “Ela é muito importante pois consegue informar e trazer oportunidades para os moradores” destaca Israel que já´ firmou parceria com a Rádio Grande Maruipe, do Bairro da Penha, e chega com seu programa a cinco bairros do Território do Bem.

Sobre o Grupo Nação, Israel destaca: “Ajudou a projetar e desenvolver a comunidade, é forte e organizado, e vai em busca de melhorias para todos os moradores”, afirmou. Ele destaca, por exemplo, o projeto Central de Compras, que busca organizar e fortalecer os comerciantes locais através do sistema de compras coletivas. “Fortaleceu o comércio local”, conclui.

Central de Compras

Assista ao vídeo abaixa, e saiba mais sobre o Projeto da Central de Compras de Jaburu, iniciativa do Grupo Nação em parceria com a Associação Ateliê de Ideias, e colaboração de diversos apoiadores.

Matéria: Marina Filetti

Edição: Geisiane Teixeira

Fotos: Thais Gobbo e divulgação do Grupo Nação

Marina Filetti

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